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Imigração

Por que a província de Quebec tem sua própria política de imigração?

Cheia de história e herança únicas, Quebec é sem dúvidas um caso à parte quando falamos de imigração canadense. Neste post vou explicar um pouco as razões pelas quais la nation québécoise adota uma postura diferente de todo o resto do Canadá em seu processo de imigração.

Por Marco Vasconcelos

Publicado em 27 de janeiro de 2023

Atualizado há 11 meses

Por que a provincia de Quebec tem sua propria politica de imigracao

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Quebec, uma província com vontade própria

Com seu próprio conjunto de critérios de seleção, programas distintos e a capacidade de selecionar seus trabalhadores qualificados do exterior – a província de Quebec detém hoje mais poder do que qualquer outra província em termos de sua capacidade de influenciar sua imigração.

Em 1995, a província francófona quase votou para se tornar um estado independente dentro do Canadá; com um modesto 0,58% de votos como a força decisiva para permanecer no Domínio Canadense. É importante notar que as lideranças que moldaram o apelo ao referendo de 1995 são os mesmos que levaram Quebec ao poder que detém sobre a imigração hoje – forças profundamente enraizadas na história e na cultura da província.

Um passado de conflitos

Quebec tem uma história cultural distinta, bem mais inclusive do que o do Canadá inglês. Em 1608, (mais de 250 anos antes da Confederação do Domínio Canadense), o diplomata e explorador francês Samuel de Champlain estabeleceu a cidade de Quebec com seus 28 homens – reivindicando a província como parte da Nova França (um território francês que abrange grande parte da costa leste do Canadá e dos Estados Unidos).

Ele fez isso no assentamento iroquesa abandonado chamado Stadacona; com as tribos iroquesas direcionando-o para o local usando sua palavra nativa para aldeia “kanata”— é aqui que o nome Canadá se origina.

Champlain, considerado o pai da Nova França, permaneceu como administrador até sua morte em 1635. Em 1763, após a conclusão da Guerra dos Sete Anos, a França assinaria o Tratado de Paris, cedendo os territórios da Nova França (incluindo Quebec) aos britânicos – esse atrito ajudaria a preparar o terreno para a ênfase na cultura francófona que se vê até hoje.

Quebec já era diferente histórica, cultural e demograficamente do resto do Canadá (que os britânicos colonizaram com efeito profundo). Quebec também foi a capital da Província Inglesa do Canadá (hoje dividida em Quebec e Ontário) duas vezes, antes de se integrar ao Domínio mais amplo do Canadá em 1867.

Entretanto, a integração da província de Quebec no domínio canadense nunca foi tão completo quanto em outras províncias de domínio inglês do Canadá; com os quebequenses mantendo grande parte da língua, costumes, estruturas legais e religião trazidas pelos franceses.

A década de 1960 foi uma época de mudanças intensas e rápidas em Quebec, amplamente conhecida como a “revolução quisidade”. Em 1961, Quebec procurou estabelecer laços democráticos com a França, o Reino Unido e os Estados Unidos – no entanto, o governo federal interveio – afirmindo que só poderia haver “um interlocutor” com países estrangeiros.

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O evento inflamaria o debate sobre o lugar de Quebec e franco-canadenses na Confederação. Em 1968, essas forças culturais, juntamente com uma mudança na política de imigração do Canadá (mudando de um sistema hierárquico por país de origem, para um sistema baseado em pontos baseado nas habilidades de trabalho do candidato individual, capacidade linguística, conexões familiares e educação) levaram à criação do primeiro ministério de imigração de Quebec.

Ícone de Dicas Dica!
Aos amantes dos grandes descobrimentos que desejam se aprofundar mais sobre a história de Quebec, deixo aqui um convite especial. Visite o site Quebec em Foco de meu amigo e parceiro William Zimmermann e faça uma viagem ao passado quebecois sob a ótica desse brasileiro apaixonado pela La Belle Province.

1971 – 1991: A Negociação para a Imigração

De acordo com a Lei Constitucional de 1867, a imigração ocupa um lugar especial entre os poderes, sendo controlada nos níveis federal e provincial – no entanto, hoje nenhuma província tem tanta influência sobre sua imigração quanto Quebec.

A criação do ministério da imigração de Quebec (hoje chamado de MIFI) sinalizou a afirmação de que controlar a imigração para a província era uma questão-chave – não apenas por razões econômicas, mas também, para preservar a língua francesa e a cultura francófona como uma preocupação principal. Como resultado, Quebec recrutaria imigrantes francófonos (falantes nativos da língua francesa) de todo o mundo durante esse período.

Entre os anos de 1971 e 1991, Quebec renegociaria continuamente sua autoridade provincial sobre a imigração; resultando em quatro grandes legislações que moldariam os poderes da província:

  • O acordo Lang-Cloutier de 1971 foi a primeira parte da legislação de imigração Canadá-Quebec; o acordo permitiu que Quebec tivesse representantes em embaixadas canadenses e para aconselhamento de imigração no exterior, aclamando em grande parte mudanças administrativas no papel de Quebec na imigração canadense;
  • O acordo Andras-Bienvenue de 1975 deu a Quebec uma parte no processo de seleção de imigrantes, permitindo que a província realizasse entrevistas e fizesse recomendações aos oficiais de vistos. Este foi um grande marco para a província, já que a legislação consagrada na lei significava que o governo federal agora teria que considerar a opinião de Quebec para cada novo pedido de imigração para o território;
  • O acordo Cullen-Couture de 1978 estendeu os mesmos direitos à imigração temporária, definindo seus critérios de seleção e dando à província ainda mais influência sobre a imigração para suas fronteiras; e, finalmente,
  • O acordo Gagnon-Tremblay-McDougall de 1991 – também conhecido como Acordo Quebec-Canadá – foi o maior triunfo para a imigração de Quebec na história da província. Sob esta legislação, a província ganhou um processo completo de seleção de imigrantes (especialmente imigrantes econômicos) até suas fronteiras; bem como a integração e francização desses indivíduos na província.

Força do francês em Quebec

Um rápido resumo histórico da política de imigração de Quebec evidencia que uma das principais preocupações da província é a preservação e promoção da cultura francófona e da língua francesa.

Em 1977, o Projeto de Lei 101 (A Carta da Língua Francesa) foi instaurado. Um enorme marco político no cenário de Quebec, esta legislação fez com que o francês se tornasse a língua cotidiana de Quebec. A maioria das crianças imigrantes (por exemplo) agora frequentaria escolas de língua francesa acima das de língua inglesa.

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Em junho de 2022, esta Carta foi atualizada com o Projeto de Lei 96 – estendendo ainda mais a ênfase no francês em Quebec. Hoje, o francês é a língua exclusiva de comunicação entre o governo de Quebec e seus residentes. Além disso, a comunicação entre empresas e seus clientes e clientes, rotulagem de produtos e contratos com a administração civil de Quebec devem ser exclusivamente em francês.

Ainda cheia de controvérsias por parte da indústria local e investidores, a Lei 96 é vista com bons olhos por conservadores de Quebec, que temem pelo futuro incerto do francês na província.

LEIA TAMBÉM: Censo canadense revela que famílias de Quebec estão falando menos francês em casa

Ainda sim, essa é uma discussão que vai dar muito o que falar, haja vista que população de imigrantes (não falantes do francês), empresas estrangeiras e governo ainda precisam de muito entendimento sobre quais serão os impactos na economia e desenvolvimento a longo prazo.

E como ficam os brasileiros nesse contexto?

Entender por que a política de imigração de Quebec difere do resto do Canadá é um passo fundamental para qualquer pessoa que queira imigrar para a província. Com a ênfase de Quebec na cultura francesa e francófona, os imigrantes que são de origens semelhantes podem ver maior sucesso na tentativa de imigrar, se estabelecer e viver na província, em oposição a outros no Canadá, especialmente se puderem atender aos critérios econômicos estabelecidos pelo governo de Quebec também.

A boa notícia para meus conterrâneos é que nós somos muito bem quistos na província. Mesmo em números ainda pouco representativos na imigração quando comparados a outras etnias, temos uma vantagem enorme no processo de adaptação. Esse fator tem levado cada vez mais brasileiros optarem pelo o Quebec, por razões que podem surpreender muita gente.

Começando pela facilidade em aprender o francês. Pode soar estrando, mas você iria se surpreender com a quantidade de professores de francês que tive aqui que são unânimes em ressaltar que todos os seus alunos brasileiros são destaque no curso. Por razões obvias, nosso idioma, latino como o francês, compartilha de uma estrutura gramatical e de palavras muito próximos do francês.

Em segundo lugar, questões culturais ligadas a religião, pois o Quebec é em sua maioria católico, mesmo se declarando laico. Curiosamente, só na cidade de Montreal, são mais de 600 igrejas católicas, algumas delas fundadas nos anos de 1700. Isso por si já mostra que temos muito em comum com eles historicamente. Mas as semelhanças não param por aí, os quebecos, como gosto de chamar carinhosamente, tem mais em comum conosco do que os canadenses do lado inglês. Eles são mais malandros, mais sociáveis e gostam bem mais de festas e comemorações.

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Por último, mas não menos importante, somos melhores em nos adaptamos a cultura deles, principalmente no ambiente de trabalho. Pode ser racista ou preconceituoso o que vou dizer, mas acredite, empregados com identidade cultural e religiosa muito profundas tendem sofrer mais para se encaixar em empresas menos abertas a imigrantes em Quebec. É nessa hora, que nosso jogo de cintura passa a ser uma carta na manga. Infelizmente a xenofobia em Quebec é um problema antigo que ainda assola imigrantes, uma provável herança dos francesas.

Bom pessoal, era isso que tinha para dizer, espero ter ajudado mais uma vez com essas informações. Inscreva-se em nossa newsletter para receber atualizações sobre a vida no Quebec e seus primeiros passos como recém-chegado.

Nos vemos no próximo post! 😉

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SOBRE O AUTOR

Pernambucano de raiz longe da terrinha desde 2018. Mais de duas décadas dedicadas à tecnologia web, comércio eletrônico e marketing. Nas horas vagas, sou pai, esposo, apaixonado por ciclismo, blogueiro e tiktoker. Enfin, é isso que eu faço.

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